Prêmio de Preservação

GUSTAVO DAHL
UM CINEASTA EM DEFESA DO CINEMA BRASILEIRO

Ele nasceu na Argentina, passou parte da infância em Montevidéu, mas ainda menino veio viver em São Paulo. Começava, então, a amorosa relação entre Gustavo Dahl e a país que adotaria para sempre, assumindo inclusive sua nacionalidade e usando sua arma mais nobre para defini-la e defendê-la: o cinema. Seja pela produção de filmes, seja pela defesa de políticas cinematográficas.

Aos 20 anos, Gustavo Dahl entrou pela porta da frente no mundo do cinema ao ser convidado pelo crítico e cineclubista Paulo Emílio Salles Gomes para escrever no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo. Na mesma época, após ter abandonado a Faculdade de Direito, passou a presidir o cineclube do Centro Dom Vital e começou a trabalhar na Cinemateca Brasileira.

O período de formação encontra seu ápice com o recebimento de uma bolsa do governo italiano para estudar cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Lá conviveu com cineastas que seriam referência na produção do século XX como Bernardo Bertolucci, mas o mais importante foi seu encontro com um brasileiro? Paulo César Saraceni, que o colocou na trilha do Cinema Novo. Antes de voltar ao Brasil, Dahl ainda teve a oportunidade de ver o nascimento do cinema-verdade ao frequentar um curso de cinema etnográfico no Musée de l´Homme, em Paris, ministrado por Jean Rouch.

1964: o ano não era nada promissor no campo da política, mas alimentou a verve de criadores e Gustavo Dahl, já de volta ao Brasil, resolve viver no Rio de Janeiro e inicia sua carreira de montador de filmes e documentarista até dirigir "O Bravo Guerreiro", que junto a "O desafio", de Saraceni, e "Terra em Transe" de Glauber Rocha, formaria uma trilogia de filmes políticos da segunda fase do Cinema Novo. Seu tempo, no entanto, não era apenas dedicado aos sets e salas de montagem. Dahl também já desenvolvia uma carreira de crítico ao colaborar em revistas importantes, como a da Civilização Brasileira, e jornais, como "Opinião" e "Movimento".

As atividades de cineasta e crítico vão se unir quando Dahl na gestão pública, a partir do momento em que ele assume a superintendência de comercialização da Embrafilme. Era 1975. Gustavo Dahl atua nas diversas áreas do mercado cinematográfica: ele produz, ele crítica, ele analisa e participa da gestão política do processo. O perfil tão completo foi considerado adequado para assumir a presidência da Agência Nacional do Cinema – ANCINE –, que ajudara a criar e fundar a partir de sua participação como relator do plano estratégico Nova Política Cinematográfica. O plano nasceu no Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica, criado para rediscutir a participação do Estado no mercado.

Depois de sua gestão-fundadora da ANCINE, Gustavo Dahl assumiu a gerência do Centro Técnico Audiovisual – CTAv, do Ministério da Cultura. Este era a tarefa que desempenhava em 2011, quando no dia 26 de junho, enquanto assistia um filme, em Trancoso, na Bahia, sofreu um infarto fulminante.