HOMENAGEM ESPECIAL

ZEZÉ MOTTA

O início das filmagens de Xica da Silva já estava se aproximando, mas o cineasta Cacá Diegues ainda não havia encontrado sua protagonista. A agonia terminou quando o amigo Nelson Motta o lembrou de uma atriz que participava do musical Godspell. Zezé Motta reunia a beleza, a energia e o carisma necessários para viver a mulher que seduziu o contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas) e subverteu a ordem do regime escravocrata. Xica da Silva (1976) não apenas consolidou Zezé Motta como uma estrela como também criou uma das personagens mais emblemáticas do cinema nacional.

Artista de muitos talentos e dona de uma carreira singular que se estende por mais de cinco décadas, Zezé Motta será a grande homenageada do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2019.  Sua carreira como atriz abrange desde montagens marcantes no teatro (como as históricas Arena conta Zumbi e Roda Viva, nos anos 1960) a um amplo espectro de obras audiovisuais que começam pelo cinema, passam pela televisão e chegam às séries dos serviços de streaming.

Na tela grande, entre dezenas de trabalhos, destacam-se Vai trabalhar, vagabundo, de Hugo Carvana (1973), Quilombo, de Cacá Diegues (1984), Anjos da noite, de Wilson Barros (1987), Tieta do Agreste (1996) e Orfeu (1998), novamente sob direção de Cacá, Cronicamente inviável, de Sérgio Bianchi (2000) e Bróder, de Jefferson De (2010). Na televisão, foi vista em novelas de imenso sucesso como Corpo a corpo (1984), A próxima vítima (1995), Renascer (1993) e Porto dos milagres (2001). Mais recentemente, participou das séries Condomínio Jaqueline (2016) e 3% (2016-2019); esta última, a primeira produção original brasileira da Netflix e segunda da América Latina.

Como cantora, Zezé imortalizou clássicos como Trocando em miúdos, de Chico Buarque e Francis Hime, e Pecado original, de Caetano Veloso, mas possivelmente sua gravação mais conhecida seja a de Senhora Liberdade, de Nei Lopes e Wilson Moreira, um marco da música brasileira.

A atriz também esteve na trama de Walcyr Carrasco, “O outro lado do Paraíso”, na Globo, onde dá vida ao personagem “Mãe Quilombo”, abordando no horário nobre a intolerância religiosa e mostrando sua militância em favor dos negros no nosso país.

Seja no cinema ou na TV, durante seus mais de 50 anos de carreira, Zezé rompe barreiras e coloca no centro da cena artística nacional as múltiplas dimensões do protagonismo feminino e negro em tela. O seu imenso talento e carreira inspiram atuais e futuras gerações de mulheres que lutam por expressão, espaço e oportunidade.

Firmada no cenário artístico como umas das atrizes mais completas, talentosas e carismáticas do Brasil, Zezé ganhou em Janeiro de 2019 uma segunda biografia, “Zezé Motta – Um Canto de Luta e Resistência”, livro que saiu pela Companhia Editora Nacional, escrito por Cacau Hygino, que fugiu de polêmicas, mas não escondeu episódios marcantes da vida pessoal e profissional da grande artista. Nele, a própria atriz e cantora conta como encara a velhice, o sexo, o racismo, entre temas como vacilos da vida e manias. Quase 90 fotos ilustram as cinco décadas de trajetória profissional marcadas desde o início pela resistência e perseverança.

Para Cacau Hygino, a perseverança de Zezé, aliada ao seu talento e à maneira simples e tranquila como leva a vida, fez com que se tornasse uma das principais artistas do Brasil. A obra tem prefácio do cineasta Cacá Diegues com quem Zezé transcende as telas e cultiva uma longa e duradoura amizade.

Cantora, atriz, mãe de seis filhos, ativista. Cinquenta anos de carreira. São 14 discos, 35 novelas e mais de 40 filmes. Impossível não se orgulhar. Não apenas pelos números. Mas também por sua história de luta contra o racismo. Esta é Zezé Motta.

foto: Jardiel Carvalho